Leveza

É que existe esse outro lado, essa outra forma de ver e viver as coisas.

Existe a sensação de serenidade, de estar em paz com o coração, deixar a mente se preocupar só com o que realmente importa, sorrir sinceramente sem motivo, olhar para o céu de manhã e sentir uma energia boa só de ver o sol e as nuvens rosadas.

Existe esse dom de enxergar os detalhes mais lindos que passam despercebidos e as surpresas boas, de procurar e encontrar algo a se admirar em cada um que cruza nosso caminho.

Essa resiliência que faz começar a semana de bom humor, encarar momentos difíceis como experiências que têm algo a nos ensinar e nos fazem mais fortes, não se importar com os olhares e as palavras venenosas das pessoas (e até se surpreender por isso).

Essa força que nos dá coragem para sair do “modo automático”, respirar fundo e correr atrás do que realmente queremos. Leva embora nosso medo e sofrimento, deixando só a confiança. E traz a certeza de que é possível, sim, continuar com os pés no chão – basta saber onde se pisa e dar passos mais largos.

Chame de Deus, de paz interior. Chame de inspiração ou a palavra que fizer mais sentido para você. Essa fé na vida, de se sentir presenteado e capaz a cada oportunidade, descobrir que se tem mais coragem do que se imagina e saber apreciar cada dia é, na minha humilde percepção, a verdadeira arte de ser feliz.

(Texto escrito em 2011, sem alterações.)

Embarque

Ela chega ao aeroporto. Ouve diferentes vozes em línguas que nem sempre compreende. Ao seu redor, todo tipo de mensagem: siga à esquerda, compre esse produto, proteja sua bagagem, alimente-se.

Não está com o seu cartão de reserva. Será que se esqueceu de pegar? Em qual companhia precisa fazer check-in?

Segue em direção à que parece mais simpática e entra na fila. As pessoas entram e saem. Não tem muita certeza de sua escolha, mas já está lá há pelo menos uma hora. Não vale a pena mudar.

Ao ser finalmente atendida, descobre que o portão de embarque ainda não foi informado. Então espera pela opções que aparecerão de acordo com o seu destino.

Entra em um deles. Já no avião informam que aconteceram alguns imprevistos, mas “está tudo sob controle”. Controle de quem? Essa voz – quem a possui?

A despressurização faz com que ela se sinta desnorteada algumas vezes. Dói respirar. Dói ouvir. Mas, ao olhar pela janela, se dá conta de que a imagem diante de si é inegável e inexplicavelmente linda. Faz com que o desconforto ocasional seja esquecido por um momento. Faz valer a pena.

Quase adormecendo, sente um movimento mais brusco. Turbulência, dizem. Forças naturais se impondo.

O desespero senta-se na poltrona ao lado como um convidado desagradável mas paciente. Diz sem meias palavras: “estou aqui a dez centímetros do seu corpo. Mas você só me dá a mão se quiser.”

Após refletir e sentir-se tentada por alguns minutos, respira fundo. Lembra-se de que, afinal, alguém supostamente capacitado conduz o avião. E que, se o risco fosse real, as circunstâncias seriam diferentes. Busca dentro de si algo que confirme esse pensamento e, no benefício da dúvida, ignora o convidado a cada nova interação.

Pensa nas pessoas que também estão no avião. Em como, no fim das contas, estão todos “no mesmo barco”. Sente compaixão. E gratidão por não estar sozinha.

O voo dura mais algumas horas, alternando momentos tranquilos e inquietos. Durante o pouso, sorri orgulhosa pelas escolhas feitas e ansiosa para conhecer as novas ruas. Enfim, chega à porta do avião.

E, antes que desça, o piloto lhe diz: “Bem-vinda ao Depois da Vida, filha. Espero que tenha gostado da viagem”.

Perspectiva

Atribuo, muitas vezes inconscientemente, significados imaginários às coisas. Então a realidade me puxa pelas canelas, e meus pés sentem o baque no chão.

Olhadas de baixo, de dentro da caixa de vidro, as impressões anteriores não parecem nada mais do que nuvens. Nuvens de poeira, mas também de ar e água. As mais escuras são ofuscadas pelas coloridas; as mais dissolvidas acrescentam leveza às pesadas.

E tem a caixa. Limitada pela minha própria razão. Não é de um vidro qualquer, mas do mais sólido e incerto, composto artesanalmente de desconfiança, senso crítico e autoironia – quase uma vitrine espelhada. Um bom lugar para se esconder das tempestades, sem dúvida. O problema é que eu gosto do cheiro da chuva.

É doloroso abrir mão das “ilusões”. Muitas vezes é preciso aceitar que, sim, aquilo é fantasia e existe apenas nos cômodos mais enfeitados da mente. Por outro lado, viver sem esperar nada não é reconfortante. E, por mais que a cabine dê a sensação de estar no controle de tudo – principalmente das emoções, o ar que permanece contido – no piso dela está escrito “você está mentindo para si mesma”.

Porque nem sempre as nuvens são apenas nuvens. Quem sabe? Às vezes, por sorte, elas são pedaços palpáveis e macios de algodão.

(Texto escrito em 2012, sem alterações.)

Peso

Eu ganhei quinze quilos nos últimos dois anos.

Sempre fui magra, com IMC abaixo do ideal (não que isso signifique muita coisa), quase sem curvas. E, como a maioria das adolescentes expostas à mídia, queria ter um corpo mais esbelto.

Sou apaixonada por carboidrato: massas, para mim, são mil vezes mais atrativas do que qualquer doce. E com uma família que cozinha maravilhosamente bem e compartilha desse meu prazer, sempre comi o máximo possível. Porque estava gostoso. Porque não sabia quando poderia comer aquele prato novamente. Porque comida é, sim, uma das melhores coisas da vida. E, claro: porque eu queria engordar.

Pois bem. Uma vez me disseram que, no dia seguinte ao aniversário de 21 anos, o metabolismo desacelera. Brincadeiras à parte, eu sabia que não teria essa dificuldade de engordar para sempre e queria aproveitar essa “vantagem” ao máximo.

Coincidentemente ou não, pouco antes de atingir essa idade, a minha rotina mudou completamente: saí da casa dos meus pais, fui assaltada e criei um trauma, passei por dois lutos que tento superar até hoje, mudei de função na empresa e de casa mais uma vez.

Eu poderia colocar tudo isso em um pacotinho, somar à minha ansiedade e abrir mão da responsabilidade pela mudança de peso. Mas não: neste meio tempo, eu percebia que estava engordando, e me via feliz com medidas que nunca tinha conquistado antes.

Até perceber que estava maltratando a mim mesma. Que a minha estrutura óssea nunca iria mudar, portanto as novas curvas jamais seriam proporcionais. Que minha pele estava sofrendo as consequências e a disposição mandava lembranças. Cada um tem seus excessos: eu nunca fiquei bêbada e não tenho a menor vontade, ando sem maquiagem sem me sentir um extraterrestre, mas sempre exagerei na comida.

Estava processando essa nova percepção do meu corpo, tentando me identificar com a imagem diferente no espelho e entender como eu me sentia em relação a ela. Tinha consciência da necessidade de uma reeducação alimentar. Trabalhava diariamente para conter meus impulsos e fazer melhores escolhas – sem muito sucesso, para ser sincera. Sabia que o meu peso ideal era algum no meio do caminho entre o inicial e o atual, e me sentia em paz com o fato de que levaria tempo para me adaptar aos novos hábitos e enxergar resultados.

Então comecei a ser informada de que “estava mais cheinha, né?”, notar os olhares de julgamento e saber que as pessoas falavam sobre isso longe da minha presença. Mas o soco no estômago mesmo aconteceu no final do ano. Eu havia chorado o dia todo pelo primeiro luto, temido desde a infância. Tinha saído há poucas horas de uma discussão. Estava fazendo todo o esforço que eu conseguia para segurar as lágrimas e celebrar a data.

Veja bem: a minha última preocupação ali era controlar o que iria comer – encarava questões que me afetavam muito mais profundamente. Aí chega uma conhecida que eu não via há alguns meses e, logo depois de me cumprimentar na frente de pelo menos cinco pessoas, fala indignada: “NOSSA, LUANE! COMO VOCÊ ESTÁ GORDA!”. Engulo seco, sorrio sem graça, abaixo a cabeça e seco os olhos. Assim que termina de cumprimentar os outros, ela repete: “sério, como você engordou tanto? Caramba!”.

Ela não falou isso com má intenção. Tenho certeza de que, se soubesse o quanto esses pequenos comentários ecoariam na minha cabeça por vários meses, teria me poupado do constrangimento – mesmo porque a própria também lida com suas questões corporais.

Mas doeu e ainda dói. Foi um rasgo na minha segurança. Um trincado na paciência de vidro que eu estava construindo para proteger a minha autoestima.

Não escrevo este texto para bancar a vítima. Longe disso, assumo a responsabilidade pelo meu novo peso e minha estabilidade emocional.

A intenção é convidar você, que aponta as alterações de massa dos outros para “dar aquela dica” ou menosprezar mesmo, a uma reflexão. Você, que elogia uma mulher dizendo: “linda, loira e magra!”. Que acha absurdo alguém não querer colocar silicone. Que repete o discurso “ser gorda é falta vergonha na cara e força de vontade”.

Independentemente do que acredita, você NÃO sabe o que está por trás da aparência alheia. Já parou para pensar que aquele indivíduo pode enfrentar uma complicação psicológica ou hormonal? Ou simplesmente que, da mesma forma que você tem o direito de enxergar a academia como a maior prioridade da sua vida, há quem priorize coisas como carreira, educação, relacionamento e cultura?

Pense nisso com carinho. E pergunte-se quantas cicatrizes não existem em você por causa da fala irresponsável de outra pessoa.

Felicidade

Sonho em escrever um livro desde que me lembro.
Sonho em assistir, ainda, a alguns shows e musicais.
Sonho em conhecer o máximo do mundo que eu puder.
Sonho em compartilhar tudo isso com as pessoas que eu amo.

Sonho também em voar em um caça (ter assistido Top Gun quando criança talvez não tenha sido a melhor ideia). E presenciar uma aurora boreal. E abrir um canil. E qualquer outra ação absurda que passar pela minha cabeça qualquer dia desses.

Mas já sou feliz agora. Não vejo a felicidade como um tubo de ensaio furado que precisa ser preenchido a cada conquista, e o tempo todo.

Mesmo porque, sejamos sinceros: em algum momento da vida estaremos plenamente realizados? Acredito e espero que não. Van Gogh podia estar certo ou errado em muitas coisas, mas em um ponto concordo com ele: “é melhor morrer de paixão do que de tédio.”

Quero, sim, riscar esses e outros itens da minha bucket list. Crescer mais e mais. Viver mais e mais. Ainda assim, todas as experiências que eu vivi até agora me são valiosas o suficiente. E é surreal pensar que, um dia, elas também foram apenas sonhos.

Ser feliz não significa estar acomodada.
Para mim, significa ser grata.