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Oi, moça. Tudo bem?

Eu queria conversar com você sobre algumas coisas. Talvez você se lembre delas, talvez elas apenas pareçam ter acontecido com alguém conhecido. E algumas podem doer, é verdade. Mas garanto que vai valer a pena.

Quando você tinha alguns poucos anos de idade, foi passear na casa do seu primo e adorou aquele ferrorama azul. Eu sei, trens são demais, não é? Toda aquela velocidade, os sons…. Você pediu um de presente de Natal também, mas seu pai disse que meninas deveriam brincar com bonecas. E que, de qualquer maneira, não existem trens cor-de-rosa.

Algum tempo depois, na escola, você começou a ouvir pessoas xingarem umas às outras de puta, vaca, vadia. E passou a usar essas palavras também. Mas olha, deixa eu te explicar: essas expressões servem para ofender mulheres apenas por fazerem suas próprias escolhas. Lembra daquele cara bonito que ficava com todas? Aposto que ninguém o diminuía por isso – pelo contrário. Sendo promiscuidade um comportamento que você aprova ou não, ele não está relacionado a nenhum gênero e não deve ser motivo para definir alguém.

E quando você não foi tão bem naquela prova de matemática? Em vez de incentivos a continuar estudando os números, você ouviu que era normal e que mulheres se dão melhor com matérias de humanas. Sabe como é, elas são mais frágeis e sensíveis. Homens são mais lógicos e fortes. Estaria tudo bem, se o seu sonho não fosse aquela faculdade de Física da qual você desistiu quando viu que era uma das únicas meninas a prestar o vestibular.

Suas primeiras baladas foram um pouco assustadoras. Você só queria usar um batom vermelho e uma saia curta, e dançar para esquecer os problemas. Mas os homens insistiam em te puxar pelo braço e ficavam surpresos quando você dizia que não estava interessada. “Por que veio assim, então?” Nas próximas, você entendeu que esse era o comportamento padrão e começou a definir a sua imagem e as suas atitudes com base no que os outros achariam aceitável.

Ontem você fez a sua primeira entrevista de emprego. Empolgada e insegura, sem saber o que estaria por vir. Você ensaiou a semana todas quais eram as melhores respostas, preparou um discurso sobre os seus pontos fortes e escolheu uma roupa social discreta (para não chamar muito a atenção, já que mulheres supostamente precisam passar despercebidas). Uma pena que o entrevistador só estava preocupado em fazer perguntas pessoais e descobrir o seu número de telefone.

Você ainda é nova, mas já percebeu que o mundo não funciona de uma forma muito justa. Sua avó, com a melhor das intenções, diz que você precisa aprender a cozinhar e cuidar da casa para conseguir um bom marido. E tem que ser logo, porque aos 30 você estará velha para criar seus filhos. Seu irmão ouve outro discurso: que ele deve mesmo curtir a vida e evitar “se prender a alguém” o máximo que puder. Qual a razão dessa diferença?

Há pouco tempo os homens eram considerados, por lei, proprietários de suas filhas e esposas. Gerações inteiras de mulheres foram ensinadas a se calarem e sorrirem. Não foi um erro delas, da sua avó: elas não tiveram escolha. Não tinham a oportunidade de trabalhar fora e conquistar a independência – ou eram contratadas por salários ridiculamente menores. Alguns anos atrás, se uma mulher era violentada, a culpa era dela.

Espera. Infelizmente ainda existem pessoas que dizem isso.

Hoje, dia 8 de março, é uma data para comemorar as mudanças que passaram a acontecer nos últimos anos. Mudanças maravilhosas, que estão remodelando as empresas e as estruturas familiares, mas ainda não parecem ter acontecido na cabeça da maioria das pessoas – como você pode perceber com todos esses exemplos. E eu queria aproveitar essa oportunidade para dizer que você pode ser quem quiser.

Tudo o que você ouviu nesses anos todos? Não é verdade. Você não precisa ser delicada – mas pode ser, se quiser. Você não é obrigada a ser uma dona de casa e ter três filhos em vez de focar na carreira e nunca ser mãe – mas pode, se quiser. Você pode fazer todas essas escolhas e também o exato oposto delas, e tudo bem. E nunca – prometo – deverá pedir a permissão dos outros para isso.

O que difere seu corpo dos outros é o seu DNA. Que também difere pessoas umas das outras, independentemente do gênero delas. Um cromossomo não define nada sobre as suas capacidades, a sua personalidade ou os seus direitos.

A liberdade já nasceu com você. Tome posse dela.