Peso

Eu ganhei quinze quilos nos últimos dois anos.

Sempre fui magra, com IMC abaixo do ideal (não que isso signifique muita coisa), quase sem curvas. E, como a maioria das adolescentes expostas à mídia, queria ter um corpo mais esbelto.

Sou apaixonada por carboidrato: massas, para mim, são mil vezes mais atrativas do que qualquer doce. E com uma família que cozinha maravilhosamente bem e compartilha desse meu prazer, sempre comi o máximo possível. Porque estava gostoso. Porque não sabia quando poderia comer aquele prato novamente. Porque comida é, sim, uma das melhores coisas da vida. E, claro: porque eu queria engordar.

Pois bem. Uma vez me disseram que, no dia seguinte ao aniversário de 21 anos, o metabolismo desacelera. Brincadeiras à parte, eu sabia que não teria essa dificuldade de engordar para sempre e queria aproveitar essa “vantagem” ao máximo.

Coincidentemente ou não, pouco antes de atingir essa idade, a minha rotina mudou completamente: saí da casa dos meus pais, fui assaltada e criei um trauma, passei por dois lutos que tento superar até hoje, mudei de função na empresa e de casa mais uma vez.

Eu poderia colocar tudo isso em um pacotinho, somar à minha ansiedade e abrir mão da responsabilidade pela mudança de peso. Mas não: neste meio tempo, eu percebia que estava engordando, e me via feliz com medidas que nunca tinha conquistado antes.

Até perceber que estava maltratando a mim mesma. Que a minha estrutura óssea nunca iria mudar, portanto as novas curvas jamais seriam proporcionais. Que minha pele estava sofrendo as consequências e a disposição mandava lembranças. Cada um tem seus excessos: eu nunca fiquei bêbada e não tenho a menor vontade, ando sem maquiagem sem me sentir um extraterrestre, mas sempre exagerei na comida.

Estava processando essa nova percepção do meu corpo, tentando me identificar com a imagem diferente no espelho e entender como eu me sentia em relação a ela. Tinha consciência da necessidade de uma reeducação alimentar. Trabalhava diariamente para conter meus impulsos e fazer melhores escolhas – sem muito sucesso, para ser sincera. Sabia que o meu peso ideal era algum no meio do caminho entre o inicial e o atual, e me sentia em paz com o fato de que levaria tempo para me adaptar aos novos hábitos e enxergar resultados.

Então comecei a ser informada de que “estava mais cheinha, né?”, notar os olhares de julgamento e saber que as pessoas falavam sobre isso longe da minha presença. Mas o soco no estômago mesmo aconteceu no final do ano. Eu havia chorado o dia todo pelo primeiro luto, temido desde a infância. Tinha saído há poucas horas de uma discussão. Estava fazendo todo o esforço que eu conseguia para segurar as lágrimas e celebrar a data.

Veja bem: a minha última preocupação ali era controlar o que iria comer – encarava questões que me afetavam muito mais profundamente. Aí chega uma conhecida que eu não via há alguns meses e, logo depois de me cumprimentar na frente de pelo menos cinco pessoas, fala indignada: “NOSSA, LUANE! COMO VOCÊ ESTÁ GORDA!”. Engulo seco, sorrio sem graça, abaixo a cabeça e seco os olhos. Assim que termina de cumprimentar os outros, ela repete: “sério, como você engordou tanto? Caramba!”.

Ela não falou isso com má intenção. Tenho certeza de que, se soubesse o quanto esses pequenos comentários ecoariam na minha cabeça por vários meses, teria me poupado do constrangimento – mesmo porque a própria também lida com suas questões corporais.

Mas doeu e ainda dói. Foi um rasgo na minha segurança. Um trincado na paciência de vidro que eu estava construindo para proteger a minha autoestima.

Não escrevo este texto para bancar a vítima. Longe disso, assumo a responsabilidade pelo meu novo peso e minha estabilidade emocional.

A intenção é convidar você, que aponta as alterações de massa dos outros para “dar aquela dica” ou menosprezar mesmo, a uma reflexão. Você, que elogia uma mulher dizendo: “linda, loira e magra!”. Que acha absurdo alguém não querer colocar silicone. Que repete o discurso “ser gorda é falta vergonha na cara e força de vontade”.

Independentemente do que acredita, você NÃO sabe o que está por trás da aparência alheia. Já parou para pensar que aquele indivíduo pode enfrentar uma complicação psicológica ou hormonal? Ou simplesmente que, da mesma forma que você tem o direito de enxergar a academia como a maior prioridade da sua vida, há quem priorize coisas como carreira, educação, relacionamento e cultura?

Pense nisso com carinho. E pergunte-se quantas cicatrizes não existem em você por causa da fala irresponsável de outra pessoa.

10 comentários em “Peso”

  1. Nossa, Lua! Estou encantada pela sua forma de escrever e sensibilizada pelo relato.
    Sempre tive problemas com o meu peso e isso reflete muito na minha autoestima. Por mais que eu pense “Não se preocupe com isso, Nina. Não é da conta de ninguém.” qualquer comentário ou olhar mais torto faz sangrar feridas que nunca conseguiram cicatrizar totalmente.

    Obrigada por compartilhar algo tão importante. Te admiro e te acho linda, por dentro e por fora.

    1. Nina, eu é que fiquei emocionada com o seu comentário!

      É bem por aí: ficamos o tempo todo nos perguntando qual voz é verdadeira, a que diz que está tudo certo ou a que nos faz sofrer e não querer estar nessa situação.

      Obrigada a você pelas palavras e por compartilhar seu ponto de vista.

      Você também é linda das duas formas e a admiração é recíproca!

      Um beijo ❤

  2. Jamais em toda minha vida imaginaria ler de vc um relato como esse, mas vamos lá, tbm estive um dia acima do peso e tbm ouvi criticas sobre isso e tbm procurei ao máximo encarar o comentário como sendo “sem maldade”, hj estou magra mais do que gostaria e tbm estou ouvindo comentários desagradáveis sobre isso tbm; Tantas outras vezes ouvi sobre a cor da minha pele, sobre o aspecto do meu cabelo e sofri bastante com td isso tbm…mas eu consegui criar meu próprio padrão e ser feliz com ele sem me importar com comentários alheios, de pessoas tão “imperfeitas” como eu…então menina toque seu barquinho e nunca permita que isso diminua sua auto estima, pq de qqr maneira nunca conseguiremos estar dentro dos padrões de todos…vá ser feliz comendo essas comidas deliciosas q um dia eu tive o prazer de comer e não se preocupe com a aparencia (msm pq de qqr forma é linda) somente cuide da saúde p poder curtir essas delícias por mto tempo.

    1. Oi, Sandra!

      Pois é, confesso que nunca me imaginei escrevendo sobre isso. Mas decidi fazê-lo para, quem sabe, ajudar outras pessoas que passam por algo parecido, sabe?

      Isso que você falou de “criar o seu próprio padrão e ser feliz com ele” é incrível! Exatamente como devemos viver a vida, não só em relação ao corpo mas a todo o resto. É um esforço diário, mas vale a pena, né?

      O segredo é esse mesmo: equilíbrio. Aproveitar as coisas boas, manter a autoestima e cuidar da saúde.

      Obrigada por passar por aqui. Você também é linda!

      Um abraço enorme.

  3. eu te entendo muuito. Também engordei nos ultimos dois anos e como eu sou alta só quem me conhece há muito tempo percebe, mas é daí que vem as cobranças. Pior que eu fico muito mal pois não sei como resolver e ao mesmo tempo não quero viver de dieta…

    O pior que essas pessoas parecem que escolhem o dia que você está mais sensivel e com a guarda baixa para soltar os comentários delas. Muitas vezes é sem pensar e a pessoa realmente acredita naquelas coisas que diz, talvez é tão cruel com elas como foi com os outros… eita, me perdi aqui…

    Eu espero que você consiga lidar com esses comentários melhor do que eu, na verdade eu acho que já está! Você é incrivel ❤

    1. Exato, Bru! Só percebe quem me conhece faz tempo também…mas acho que o mais difícil é nós mesmas nos identificarmos com o novo corpo, né?

      Eu já aceitei uma coisa: não sou a adolescente que era anos atrás, mudei de várias formas, então não tem sentido querer ter o mesmo corpo.

      Sim, as pessoas podem ser cruéis. Essa do meu texto acredito que tenha falado sem maldade, sabe? Faltou tato apenas. Mas sei que, infelizmente, não é o que acontece na maioria das vezes.

      Espero que o texto tenha te ajudado de alguma forma. Você é linda e talentosa e merece se enxergar assim também. Obrigada e um beijo! ❤

    1. Oi, Fabiana!

      Obrigada por passar por aqui e pelo carinho, viu?

      Estamos juntas nessa e vai ficar tudo bem. Merecemos enxergar nossa própria beleza!

      Um grande beijo!

  4. Eu luto com a balança desde muito novinha e não consigo emagrecer de jeito nenhum, tenho ansiedade e desconto tudo nos doces, é um vício que não consigo me livrar, já perdi a conta quantas vezes comi chorando porque precisava no momento, mas sabia que não podia, e claro, sempre tem essas pessoas inconvenientes quem não tem o mínimo de empatia e consideração e faz com que a gente se sinta pior ainda, há tantas formas de ajudar, dizer que estamos gordas não é uma delas, pois temos espelho em casa, obrigada. Primeiramente tente encontrar um equilíbrio na alimentação pensando na sua saúde, diminua os carboidratos aos poucos, é um processo longo, mas quando começar a ver resultados você nunca vai querer parar, eu estou nessa caminhada, é devagar, mas já é alguma coisa e o que os outros falam? Deixem que falem, o importante é você se sentir bem.

    1. Oi K, tudo bem?

      Minha maior inimiga nessa vida é a ansiedade também: me afeta não apenas na alimentação mas no trabalho, em tudo. E conheço o sentimento de comer por precisar e se sentir culpada. Sinta-se abraçada!

      Infelizmente empatia é uma coisa muito em falta no mundo hoje em dia. Acho que as maioria das pessoas só se torna sensível a coisas que elas já tenham sofrido, sabe? Por isso esse texto foi uma tentativa de abrir os olhos delas, se lerem.

      Mas o que você falou sobre encontrar um equilíbrio é essencial: aos poucos, tentar melhorar, sem nos restringir totalmente de tudo para não ter o colapso de voltar e querer tudo de uma vez. Né?

      O importante é nos sentirmos bem mesmo, não só em relação ao corpo mas também à consciência.

      Obrigada por passar por aqui e volte sempre! Um abraço!

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