Felicidade

Sonho em escrever um livro desde que me lembro.
Sonho em assistir, ainda, a alguns shows e musicais.
Sonho em conhecer o máximo do mundo que eu puder.
Sonho em compartilhar tudo isso com as pessoas que eu amo.

Sonho também em voar em um caça (ter assistido Top Gun quando criança talvez não tenha sido a melhor ideia). E presenciar uma aurora boreal. E abrir um canil. E qualquer outra ação absurda que passar pela minha cabeça qualquer dia desses.

Mas já sou feliz agora. Não vejo a felicidade como um tubo de ensaio furado que precisa ser preenchido a cada conquista, e o tempo todo.

Mesmo porque, sejamos sinceros: em algum momento da vida estaremos plenamente realizados? Acredito e espero que não. Van Gogh podia estar certo ou errado em muitas coisas, mas em um ponto concordo com ele: “é melhor morrer de paixão do que de tédio.”

Quero, sim, riscar esses e outros itens da minha bucket list. Crescer mais e mais. Viver mais e mais. Ainda assim, todas as experiências que eu vivi até agora me são valiosas o suficiente. E é surreal pensar que, um dia, elas também foram apenas sonhos.

Ser feliz não significa estar acomodada.
Para mim, significa ser grata.

Chave

A única coisa que você precisa fazer pelas pessoas é estar lá. Ouvi-las e apoiá-las, respeitando suas crenças e limitações.

E é exatamente isso, e apenas isso, que elas precisam fazer por você. Não dar aprovação para alguma ideia, nem te dizer como agir. Apenas incentivar. Ou propor reflexões. Acrescentar.

Suas escolhas são suas, e ninguém melhor para entendê-las e avaliá-las do que o seu coração – ou a consciência, como preferir.

Quando você silenciar todo o ruído e perguntar a si mesmo, e se tiver coragem suficiente para seguir a resposta, então será verdadeiramente livre.

(Enfim poderá ajudar os outros a fazerem o mesmo. Qual melhor altruísmo?)

Atestado

Chega um momento em que você simplesmente perde aquela necessidade de correr atrás das pessoas.

Você cansa de ser sempre a que toma a iniciativa, manda uma mensagem e marca um café. E a que se culpa pelo tempo sem contato, querendo colocar toda a conversa em dia e pedindo – quase por favor – para que se falem com mais frequência.

A que ouve os desabafos e ajuda a amiga nos momentos de crise, dando tudo de si, para ser “esquecida” quando o objetivo é se divertir e esquecer os problemas. A que é convidada para as consultas ao médico, mas nunca para as festas ou o cinema.

Você percebe que não adianta deixar para trás os mal entendidos com a intenção de voltar tudo ao que era. Porque não vai voltar – e tudo bem. As fases mudam, as amizades mudam. E duram o tempo que precisam.

Hoje, eu me dispenso da responsabilidade de forçar qualquer afinidade e conversas cujo interesse não seja recíproco. Vou aprender a respeitar melhor o espaço dos outros e, especialmente, a mim mesma.

Assinatura

Sou escritora – é simples assim.

Sei a idade com a qual comecei a ler: quatro anos. E me lembro muito bem de como aconteceu. Todos os dias eu caminhava com a minha mãe para a escola e passava por um grande muro belamente decorado por um político em época de campanha eleitoral. Por “decorado”, leia-se o nome e o número do sujeito. E, a cada vez que estávamos em frente a ele, eu perguntava  à minha mãe o que estava escrito. “Luiz”, ela repetia.

Pois bem. Eis que, em uma manhã qualquer, eu já havia decorado o que as letras pretas gigantes queriam dizer. E entoei em alto e bom tom a palavrinha quando passamos pelo muro. Ao contrário de como eu esperava que minha mãe reagisse (fazendo absolutamente nada), ela soltou um grito de surpresa: “Luane, você aprendeu a ler!”.

Quando voltamos para casa, enquanto preparava o almoço junto com o meu pai, ela separou todos os ímãs de geladeira (aqueles de delivery, vários) e pediu que eu lesse. Sem saber como assumir que tinha apenas memorizado o bendito “Luiz”, eu simplesmente li.

Acredito que, naquela mesma época, tenha nascido a minha paixão pela escrita. Foram vários os livros em Word e Power Point (!) que eu comecei e não terminei – ou terminei sem perceber. Desde que me conheço por gente, sempre que me perguntavam qual era o maior sonho, a resposta era escrever um livro. E o clichê o que você quer ser quando crescer, invariavelmente, continha um “escritora”, mesmo que acompanhado de alguns “cantora” ou “atriz”.

Não foi por acaso que eu decidi estudar Letras (mesmo matriculada em um curso de Análise de Sistemas). Cresci apaixonada pela arte e, especialmente, pelas palavras. Elas foram minhas únicas e mais especiais companheiras por muito tempo, e os momentos em que eu as deixei de lado foram sem dúvida os mais difíceis.

Também não é coincidência o fato de eu manter blogs desde os dez anos de idade ou trabalhar atualmente com produção de conteúdo. Independentemente de para onde minha vida e minha carreira caminharem, espero que a escrita permaneça comigo. E sinto que agora preciso assumi-la publicamente.

Quem sabe não dou a mesma sorte do episódio do “Luiz”, né? Vou fingir que sou escritora e ver o que acontece.

PS: Agradeço especialmente à Paloma Engelke por este texto.