Embarque

Ela chega ao aeroporto. Ouve diferentes vozes em línguas que nem sempre compreende. Ao seu redor, todo tipo de mensagem: siga à esquerda, compre esse produto, proteja sua bagagem, alimente-se.

Não está com o seu cartão de reserva. Será que se esqueceu de pegar? Em qual companhia precisa fazer check-in?

Segue em direção à que parece mais simpática e entra na fila. As pessoas entram e saem. Não tem muita certeza de sua escolha, mas já está lá há pelo menos uma hora. Não vale a pena mudar.

Ao ser finalmente atendida, descobre que o portão de embarque ainda não foi informado. Então espera pela opções que aparecerão de acordo com o seu destino.

Entra em um deles. Já no avião informam que aconteceram alguns imprevistos, mas “está tudo sob controle”. Controle de quem? Essa voz – quem a possui?

A despressurização faz com que ela se sinta desnorteada algumas vezes. Dói respirar. Dói ouvir. Mas, ao olhar pela janela, se dá conta de que a imagem diante de si é inegável e inexplicavelmente linda. Faz com que o desconforto ocasional seja esquecido por um momento. Faz valer a pena.

Quase adormecendo, sente um movimento mais brusco. Turbulência, dizem. Forças naturais se impondo.

O desespero senta-se na poltrona ao lado como um convidado desagradável mas paciente. Diz sem meias palavras: “estou aqui a dez centímetros do seu corpo. Mas você só me dá a mão se quiser.”

Após refletir e sentir-se tentada por alguns minutos, respira fundo. Lembra-se de que, afinal, alguém supostamente capacitado conduz o avião. E que, se o risco fosse real, as circunstâncias seriam diferentes. Busca dentro de si algo que confirme esse pensamento e, no benefício da dúvida, ignora o convidado a cada nova interação.

Pensa nas pessoas que também estão no avião. Em como, no fim das contas, estão todos “no mesmo barco”. Sente compaixão. E gratidão por não estar sozinha.

O voo dura mais algumas horas, alternando momentos tranquilos e inquietos. Durante o pouso, sorri orgulhosa pelas escolhas feitas e ansiosa para conhecer as novas ruas. Enfim, chega à porta do avião.

E, antes que desça, o piloto lhe diz: “Bem-vinda ao Depois da Vida, filha. Espero que tenha gostado da viagem”.

Régua

A vida não se mede por quão bonito é o seu berço. Por quantos lápis de cor você tem, qual é o seu lanche, o modelo da sua boneca ou o seu desenho.

Também não se mede pelo destino das suas últimas férias, a marca da sua nova mochila, a nota que você tirou na prova de matemática, se está na turma dos populares ou não.

A vida não se mede pela existência do seu diploma, muito menos o que está escrito nele. Nem pelos seus relacionamentos ou quantas festas você frequenta.

Não se mede pelos metros quadrados da sua casa, o logo estampado no seu celular, quantas promoções você recebeu no trabalho ou a sua conta bancária.

Nem pelo que você veste, nem por quanto pesa, nem por quantas curtidas teve a sua última foto em um site qualquer.

Na verdade, a vida não se mede – nem mesmo a duração dela.