Leveza

É que existe esse outro lado, essa outra forma de ver e viver as coisas.

Existe a sensação de serenidade, de estar em paz com o coração, deixar a mente se preocupar só com o que realmente importa, sorrir sinceramente sem motivo, olhar para o céu de manhã e sentir uma energia boa só de ver o sol e as nuvens rosadas.

Existe esse dom de enxergar os detalhes mais lindos que passam despercebidos e as surpresas boas, de procurar e encontrar algo a se admirar em cada um que cruza nosso caminho.

Essa resiliência que faz começar a semana de bom humor, encarar momentos difíceis como experiências que têm algo a nos ensinar e nos fazem mais fortes, não se importar com os olhares e as palavras venenosas das pessoas (e até se surpreender por isso).

Essa força que nos dá coragem para sair do “modo automático”, respirar fundo e correr atrás do que realmente queremos. Leva embora nosso medo e sofrimento, deixando só a confiança. E traz a certeza de que é possível, sim, continuar com os pés no chão – basta saber onde se pisa e dar passos mais largos.

Chame de Deus, de paz interior. Chame de inspiração ou a palavra que fizer mais sentido para você. Essa fé na vida, de se sentir presenteado e capaz a cada oportunidade, descobrir que se tem mais coragem do que se imagina e saber apreciar cada dia é, na minha humilde percepção, a verdadeira arte de ser feliz.

(Texto escrito em 2011, sem alterações.)

Perspectiva

Atribuo, muitas vezes inconscientemente, significados imaginários às coisas. Então a realidade me puxa pelas canelas, e meus pés sentem o baque no chão.

Olhadas de baixo, de dentro da caixa de vidro, as impressões anteriores não parecem nada mais do que nuvens. Nuvens de poeira, mas também de ar e água. As mais escuras são ofuscadas pelas coloridas; as mais dissolvidas acrescentam leveza às pesadas.

E tem a caixa. Limitada pela minha própria razão. Não é de um vidro qualquer, mas do mais sólido e incerto, composto artesanalmente de desconfiança, senso crítico e autoironia – quase uma vitrine espelhada. Um bom lugar para se esconder das tempestades, sem dúvida. O problema é que eu gosto do cheiro da chuva.

É doloroso abrir mão das “ilusões”. Muitas vezes é preciso aceitar que, sim, aquilo é fantasia e existe apenas nos cômodos mais enfeitados da mente. Por outro lado, viver sem esperar nada não é reconfortante. E, por mais que a cabine dê a sensação de estar no controle de tudo – principalmente das emoções, o ar que permanece contido – no piso dela está escrito “você está mentindo para si mesma”.

Porque nem sempre as nuvens são apenas nuvens. Quem sabe? Às vezes, por sorte, elas são pedaços palpáveis e macios de algodão.

(Texto escrito em 2012, sem alterações.)

Felicidade

Sonho em escrever um livro desde que me lembro.
Sonho em assistir, ainda, a alguns shows e musicais.
Sonho em conhecer o máximo do mundo que eu puder.
Sonho em compartilhar tudo isso com as pessoas que eu amo.

Sonho também em voar em um caça (ter assistido Top Gun quando criança talvez não tenha sido a melhor ideia). E presenciar uma aurora boreal. E abrir um canil. E qualquer outra ação absurda que passar pela minha cabeça qualquer dia desses.

Mas já sou feliz agora. Não vejo a felicidade como um tubo de ensaio furado que precisa ser preenchido a cada conquista, e o tempo todo.

Mesmo porque, sejamos sinceros: em algum momento da vida estaremos plenamente realizados? Acredito e espero que não. Van Gogh podia estar certo ou errado em muitas coisas, mas em um ponto concordo com ele: “é melhor morrer de paixão do que de tédio.”

Quero, sim, riscar esses e outros itens da minha bucket list. Crescer mais e mais. Viver mais e mais. Ainda assim, todas as experiências que eu vivi até agora me são valiosas o suficiente. E é surreal pensar que, um dia, elas também foram apenas sonhos.

Ser feliz não significa estar acomodada.
Para mim, significa ser grata.