Perspectiva

Atribuo, muitas vezes inconscientemente, significados imaginários às coisas. Então a realidade me puxa pelas canelas, e meus pés sentem o baque no chão.

Olhadas de baixo, de dentro da caixa de vidro, as impressões anteriores não parecem nada mais do que nuvens. Nuvens de poeira, mas também de ar e água. As mais escuras são ofuscadas pelas coloridas; as mais dissolvidas acrescentam leveza às pesadas.

E tem a caixa. Limitada pela minha própria razão. Não é de um vidro qualquer, mas do mais sólido e incerto, composto artesanalmente de desconfiança, senso crítico e autoironia – quase uma vitrine espelhada. Um bom lugar para se esconder das tempestades, sem dúvida. O problema é que eu gosto do cheiro da chuva.

É doloroso abrir mão das “ilusões”. Muitas vezes é preciso aceitar que, sim, aquilo é fantasia e existe apenas nos cômodos mais enfeitados da mente. Por outro lado, viver sem esperar nada não é reconfortante. E, por mais que a cabine dê a sensação de estar no controle de tudo – principalmente das emoções, o ar que permanece contido – no piso dela está escrito “você está mentindo para si mesma”.

Porque nem sempre as nuvens são apenas nuvens. Quem sabe? Às vezes, por sorte, elas são pedaços palpáveis e macios de algodão.

(Texto escrito em 2012, sem alterações.)

Felicidade

Sonho em escrever um livro desde que me lembro.
Sonho em assistir, ainda, a alguns shows e musicais.
Sonho em conhecer o máximo do mundo que eu puder.
Sonho em compartilhar tudo isso com as pessoas que eu amo.

Sonho também em voar em um caça (ter assistido Top Gun quando criança talvez não tenha sido a melhor ideia). E presenciar uma aurora boreal. E abrir um canil. E qualquer outra ação absurda que passar pela minha cabeça qualquer dia desses.

Mas já sou feliz agora. Não vejo a felicidade como um tubo de ensaio furado que precisa ser preenchido a cada conquista, e o tempo todo.

Mesmo porque, sejamos sinceros: em algum momento da vida estaremos plenamente realizados? Acredito e espero que não. Van Gogh podia estar certo ou errado em muitas coisas, mas em um ponto concordo com ele: “é melhor morrer de paixão do que de tédio.”

Quero, sim, riscar esses e outros itens da minha bucket list. Crescer mais e mais. Viver mais e mais. Ainda assim, todas as experiências que eu vivi até agora me são valiosas o suficiente. E é surreal pensar que, um dia, elas também foram apenas sonhos.

Ser feliz não significa estar acomodada.
Para mim, significa ser grata.

Atestado

Chega um momento em que você simplesmente perde aquela necessidade de correr atrás das pessoas.

Você cansa de ser sempre a que toma a iniciativa, manda uma mensagem e marca um café. E a que se culpa pelo tempo sem contato, querendo colocar toda a conversa em dia e pedindo – quase por favor – para que se falem com mais frequência.

A que ouve os desabafos e ajuda a amiga nos momentos de crise, dando tudo de si, para ser “esquecida” quando o objetivo é se divertir e esquecer os problemas. A que é convidada para as consultas ao médico, mas nunca para as festas ou o cinema.

Você percebe que não adianta deixar para trás os mal entendidos com a intenção de voltar tudo ao que era. Porque não vai voltar – e tudo bem. As fases mudam, as amizades mudam. E duram o tempo que precisam.

Hoje, eu me dispenso da responsabilidade de forçar qualquer afinidade e conversas cujo interesse não seja recíproco. Vou aprender a respeitar melhor o espaço dos outros e, especialmente, a mim mesma.

XX

Oi, moça. Tudo bem?

Eu queria conversar com você sobre algumas coisas. Talvez você se lembre delas, talvez elas apenas pareçam ter acontecido com alguém conhecido. E algumas podem doer, é verdade. Mas garanto que vai valer a pena.

Quando você tinha alguns poucos anos de idade, foi passear na casa do seu primo e adorou aquele ferrorama azul. Eu sei, trens são demais, não é? Toda aquela velocidade, os sons…. Você pediu um de presente de Natal também, mas seu pai disse que meninas deveriam brincar com bonecas. E que, de qualquer maneira, não existem trens cor-de-rosa.

Algum tempo depois, na escola, você começou a ouvir pessoas xingarem umas às outras de puta, vaca, vadia. E passou a usar essas palavras também. Mas olha, deixa eu te explicar: essas expressões servem para ofender mulheres apenas por fazerem suas próprias escolhas. Lembra daquele cara bonito que ficava com todas? Aposto que ninguém o diminuía por isso – pelo contrário. Sendo promiscuidade um comportamento que você aprova ou não, ele não está relacionado a nenhum gênero e não deve ser motivo para definir alguém.

E quando você não foi tão bem naquela prova de matemática? Em vez de incentivos a continuar estudando os números, você ouviu que era normal e que mulheres se dão melhor com matérias de humanas. Sabe como é, elas são mais frágeis e sensíveis. Homens são mais lógicos e fortes. Estaria tudo bem, se o seu sonho não fosse aquela faculdade de Física da qual você desistiu quando viu que era uma das únicas meninas a prestar o vestibular.

Suas primeiras baladas foram um pouco assustadoras. Você só queria usar um batom vermelho e uma saia curta, e dançar para esquecer os problemas. Mas os homens insistiam em te puxar pelo braço e ficavam surpresos quando você dizia que não estava interessada. “Por que veio assim, então?” Nas próximas, você entendeu que esse era o comportamento padrão e começou a definir a sua imagem e as suas atitudes com base no que os outros achariam aceitável.

Ontem você fez a sua primeira entrevista de emprego. Empolgada e insegura, sem saber o que estaria por vir. Você ensaiou a semana todas quais eram as melhores respostas, preparou um discurso sobre os seus pontos fortes e escolheu uma roupa social discreta (para não chamar muito a atenção, já que mulheres supostamente precisam passar despercebidas). Uma pena que o entrevistador só estava preocupado em fazer perguntas pessoais e descobrir o seu número de telefone.

Você ainda é nova, mas já percebeu que o mundo não funciona de uma forma muito justa. Sua avó, com a melhor das intenções, diz que você precisa aprender a cozinhar e cuidar da casa para conseguir um bom marido. E tem que ser logo, porque aos 30 você estará velha para criar seus filhos. Seu irmão ouve outro discurso: que ele deve mesmo curtir a vida e evitar “se prender a alguém” o máximo que puder. Qual a razão dessa diferença?

Há pouco tempo os homens eram considerados, por lei, proprietários de suas filhas e esposas. Gerações inteiras de mulheres foram ensinadas a se calarem e sorrirem. Não foi um erro delas, da sua avó: elas não tiveram escolha. Não tinham a oportunidade de trabalhar fora e conquistar a independência – ou eram contratadas por salários ridiculamente menores. Alguns anos atrás, se uma mulher era violentada, a culpa era dela.

Espera. Infelizmente ainda existem pessoas que dizem isso.

Hoje, dia 8 de março, é uma data para comemorar as mudanças que passaram a acontecer nos últimos anos. Mudanças maravilhosas, que estão remodelando as empresas e as estruturas familiares, mas ainda não parecem ter acontecido na cabeça da maioria das pessoas – como você pode perceber com todos esses exemplos. E eu queria aproveitar essa oportunidade para dizer que você pode ser quem quiser.

Tudo o que você ouviu nesses anos todos? Não é verdade. Você não precisa ser delicada – mas pode ser, se quiser. Você não é obrigada a ser uma dona de casa e ter três filhos em vez de focar na carreira e nunca ser mãe – mas pode, se quiser. Você pode fazer todas essas escolhas e também o exato oposto delas, e tudo bem. E nunca – prometo – deverá pedir a permissão dos outros para isso.

O que difere seu corpo dos outros é o seu DNA. Que também difere pessoas umas das outras, independentemente do gênero delas. Um cromossomo não define nada sobre as suas capacidades, a sua personalidade ou os seus direitos.

A liberdade já nasceu com você. Tome posse dela.

Assinatura

Sou escritora – é simples assim.

Sei a idade com a qual comecei a ler: quatro anos. E me lembro muito bem de como aconteceu. Todos os dias eu caminhava com a minha mãe para a escola e passava por um grande muro belamente decorado por um político em época de campanha eleitoral. Por “decorado”, leia-se o nome e o número do sujeito. E, a cada vez que estávamos em frente a ele, eu perguntava  à minha mãe o que estava escrito. “Luiz”, ela repetia.

Pois bem. Eis que, em uma manhã qualquer, eu já havia decorado o que as letras pretas gigantes queriam dizer. E entoei em alto e bom tom a palavrinha quando passamos pelo muro. Ao contrário de como eu esperava que minha mãe reagisse (fazendo absolutamente nada), ela soltou um grito de surpresa: “Luane, você aprendeu a ler!”.

Quando voltamos para casa, enquanto preparava o almoço junto com o meu pai, ela separou todos os ímãs de geladeira (aqueles de delivery, vários) e pediu que eu lesse. Sem saber como assumir que tinha apenas memorizado o bendito “Luiz”, eu simplesmente li.

Acredito que, naquela mesma época, tenha nascido a minha paixão pela escrita. Foram vários os livros em Word e Power Point (!) que eu comecei e não terminei – ou terminei sem perceber. Desde que me conheço por gente, sempre que me perguntavam qual era o maior sonho, a resposta era escrever um livro. E o clichê o que você quer ser quando crescer, invariavelmente, continha um “escritora”, mesmo que acompanhado de alguns “cantora” ou “atriz”.

Não foi por acaso que eu decidi estudar Letras (mesmo matriculada em um curso de Análise de Sistemas). Cresci apaixonada pela arte e, especialmente, pelas palavras. Elas foram minhas únicas e mais especiais companheiras por muito tempo, e os momentos em que eu as deixei de lado foram sem dúvida os mais difíceis.

Também não é coincidência o fato de eu manter blogs desde os dez anos de idade ou trabalhar atualmente com produção de conteúdo. Independentemente de para onde minha vida e minha carreira caminharem, espero que a escrita permaneça comigo. E sinto que agora preciso assumi-la publicamente.

Quem sabe não dou a mesma sorte do episódio do “Luiz”, né? Vou fingir que sou escritora e ver o que acontece.

PS: Agradeço especialmente à Paloma Engelke por este texto.